A Filosofia de Dark Souls

Por trás de toda grande obra de arte existe um grande realizador, alguém que deu não só tudo de suas habilidades para concretizar tal feito mas como sua trajetória de vida e suas crenças pessoais. No caso dos videogames não é diferente e em relação à mais bela pérola desse gênero de entretenimento moderno, também não se distingue. Dark Souls é um jogo com muitos rótulos “difícil, injusto, confuso” também aqueles que o elogiam “recompensador, inovador, desafiador”, mas eu prefiro outros termos, termos que conseguem atingir a Alma Negra dessa obra de maneira muito melhor: poético, belo, filosófico.

Hidetaka Miyazaki foi a mente criativa por trás de Dark Souls e antes dele, seu predecessor espiritual e ainda um diamante bruto a ser polido, Demon’s Souls. Na infância, Miyazaki lia histórias e muito delas ele não compreendia totalmente pelo fato de apenas ser fluente em japonês na época. Para compensar a ignorância dos eventos narrados, ele preenchia com a imaginação o que poderia ter ocorrido com base em imagens e ilustrações.

Miyazaki incorporou isso ao criar Dark Souls e, na minha humilde opinião, é a mais bela característica do jogo. Uma narração de eventos vaga, livre para diversas interpretações, isso é o que a arte verdadeira faz. Aqui não irei sintetizar em poucas linhas a história dita “canônica” nem as dezenas de teorias existentes. Para uma narrativa mais concisa, aconselho a buscar o canal do youtuber australiano Vaatividya, o qual se especializou em contar a lore e as teorias mais populares dos jogos.

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“Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”

Como cada qual tem sua visão, resolvi baixar uma lente um tanto quanto incomum nos videogames, a da filosofia. Atravessando todos os três jogos da saga e analisando seus eventos e desfecho, é possível se traçar um paralelo entre os games e duas linhas de pensamento filosóficos muito populares desde o século XIX: a do niilismo e a filosofia de Friedrich Nietzsche. O niilismo é basicamente a negação de tudo, de todos os valores e toda a moral vigente. Nietzsche é tachado de niilista e de ser incentivador de tal, mas segundo o próprio, ele busca a destruição do niilismo através da aceitação da vida como valor máximo.

Posteriormente o filósofo francês Gilles Deleuze, sistematizou a ideologia niilista em quatro tipos. O niilismo ao qual Nietzsche combatia é o qual Deleuze batizou de niilismo negativo, aquele que prega a negação da vida em prol de uma realidade superior, como o mundo das ideias de Platão e os paraísos das religiões monoteístas. O niilismo ao qual Nietzsche aparenta favorecer, e o qual ele não chama por esse nome e sim por Übermensch, ou Além-Homem é o niilismo ativo, aquele que busca a transvaloração de todos os valores, a destruição das correntes morais de nossa sociedade e o nascimento de uma nova era de seres humanos, capazes de existir e decidir sem um código de condutas marcado na pedra, além do bem e do mal.

Dark Souls pode ser visto como uma alegoria de tais conceitos se observado a fundo. A cada momento em que o jogar conversa com um personagem do jogo (NPC), em sua maioria eles negam a missão do chamado para reascender a chama e permanecem melancólicos, guiados pelos eventos do mundo, sem esperança. Sem contar da clássica risada irônica que absolutamente todos os personagens tem ao final dos diálogos. Esse é o chamado niilismo passivo por Deleuze. Aquele que se aproxima do estado de depressão e ausência de fé em absolutamente tudo. Diferente dos outros, o niilista passivo não tenta mudar o mundo ou manter seu status quo, ele apenas desistiu.

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“Um homem precisa se queimar em suas próprias chamas para poder renascer das cinzas!

Muito tempo depois da descoberta da primeira chama por Gwyn e companhia, a chama foi ameaçada de se apagar. Gwyn sacrificou sua própria alma e seu status de deus para então reacendê-la. Assim por incontáveis eras, os undeads foram chamados pelo toque do sino para reascender a chama uma vez mais sempre que ela ameaçasse findar. Ao final de Dark Souls 3, percebemos que tal ciclo de religamento acabou por criar um cataclismo no mundo em que tanto o tempo como o espaço estão agora se convergindo para um mesmo ponto e o apagar da primeira chama é inevitável.

Dois argumentos da filosofia nietzschiana podem ser aplicados aqui, pois ambos os conceitos andam de mãos dadas. O eterno retorno e o amor fati. À primeira impressão, pode-se julgar que o ciclo do reacender da chama representa o conceito de eterno retorno, que seria viver eternamente a mesma vida sempre sem alterações. A meu ver, isso se aplica melhor ao apagar da chama, o surgimento inevitável da era da escuridão e novamente o nascer de uma nova chama primordial como se deixa subentendido no dialogo da Guardiã do Fogo em um dos finais de Dark Souls 3, no qual ela se assegura de uma leve brasa para aguardar o momento certo dessa reascender. Assim, infinitamente, a chama surgirá, os lordes as encontrão e criarão a era dos deuses, a era do fogo, até o dia em que ela se apague e surja a era da escuridão, a era dos homens e sucessivamente ad infinitum.

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“Tu, grande astro! Que seria de tua sorte, se te faltassem aqueles a quem iluminas?”

O amor fati se encontra quando nós como jogadores incorporamos uma aceitação de que de fato o fogo terá fim e escolhemos o final em que a chama se apaga. Amor fati é o amor ao destino, é o eterno retorno elevado ao mais alto patamar, é amar tudo o que você fez e tudo que lhe aconteceu independente das dificuldades e tristezas. Um jogador da série souls deve incorporar o amor fati totalmente. Perdemos centenas de milhares de almas na queda boba de um precipício, morremos dezenas e dezenas de vezes para um chefe muito difícil e passamos por muita, mas muita raiva ao longo do jogo. Mas o amamos mesmo assim, amamos os momentos bons e ruins, as dificuldades e tristezas e jogamos de novo e de novo sem parar.

Um ultimo conceito de Nietzsche que podemos basear na narrativa dos jogos é o seu Übermensch. Na era dos deuses, os homens não passam de fiéis, seres inferiores a esses que fundaram os alicerces da civilização. Dentre aqueles que encontraram as almas dos lordes na chama primordial, havia o pigmeu furtivo, o qual teoriza-se ser o primeiro humano e portador da alma negra da humanidade. Ao longo dos jogos, existem aqueles que tentam convencer o jogador a dar fim à era do fogo e iniciar a era dos homens. Como Nietzsche e seu martelo, os homens em Dark Souls devem matar seus deuses e criar seu próprio mundo, fora dos julgamento de seres divinos para que tornem-se a si mesmos a divindade.

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“Passa-se com o homem o mesmo que com a árvore. Quanto mais quer crescer para o alto e para a claridade, tanto mais suas raízes tendem para a terra, para baixo, para a treva, para a profundeza – para o mal.”

Muito mais existe a ser contado, teorizado e filosofado, infelizmente o tempo e o espaço são curtos e cada um deve traçar sua jornada só. Adeus então. Fique bem, amigo. Não ouse se tornar vazio.

 

Imagens: Retiradas de material promocional dos jogos e de takes in game.
Citações nas imagens: Friedrich Nietzsche