Filosofilmes: Por que “A Fuga das Galinhas” é o melhor filme marxista de todos os tempos

Embora possa receber algum cunho pedagógico, o  filosofilmes possui propósitos de entretenimento, não devendo ser levado (muito) a sério.

Queremos alcançar uma nova e melhor organização da sociedade:  nesta nova e superior sociedade não deve haver ricos ou pobres, todos hão de participar no trabalho. Não apenas um punhado de ricos, mas todos os trabalhadores deverão aproveitar os frutos do trabalho comum […]” – Vladimir Lenin –  “Aos pobres do Campo”, 1903.

Sabem qual é o problema? As cercas não estão somente envolta da granja, estão aqui, em suas cabeças. Há um lugar melhor lá fora, um lugar além da colina, com espaços abertos, muitas árvores… e grama. Podem imaginar isso? Grama verde e fresca.” – Ginger – “A fuga das Galinhas”, 2000.

O filme “A fuga das galinhas”, de Nick Park e Peter Lord, trata-se, a uma primeira vista, de uma produção infantil que aborda a história de galinhas pertencentes a uma pequena granja, onde são exploradas diariamente pela obtenção de ovos. A partir disto surge Ginger, uma galinha que, insatisfeita com o status quo, torna-se líder de um movimento revolucionário que propõe a libertação de suas camaradas. Para ela, um dos fatores de maior importância para a efetividade de seu plano se dá pelo combate a ideologia, isto é, o falseamento da realidade.

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Ginger é caracterizada por uma boina, acessório popularizado por ativistas e revolucionários.

Marx acreditava que a história da humanidade pudesse ser vista, parafraseando o mesmo, como “a história da luta de classes”. De modo geral, podemos entender as classes sociais como grupos sociais distintos, cada qual numa situação econômica, dispondo de um determinado tipo de acesso aos meios de produção. Para o pensador alemão, a luta de classes se dá pelo antagonismo entre a classe dominante e a classe explorada ou, na sociedade capitalista, entre a burguesia, que detêm o capital e os meios de produção, e o proletariado que, por não possuir controle real da produção econômica, deve vender sua força de trabalho de modo a sobreviver.

Na animação, fica clara esta distinção: a classe dominante é personificada pelos donos da granja (meio de produção) Sra. e Sr. Tweedy, enquanto as galinhas compõem o grupo dos trabalhadores, sendo a principal força produtiva. No filme, a mercadoria básica são os ovos que, produzidos pelo prolegalinhado, acabam por apresentar destino desconhecido a estes, tornando-os estranhos ao seu produtor, possibilitando assim sua alienação.

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A granja dos Tweed pode ser vista como uma alegoria a sociedade capitalista burguesa, sendo estruturada para a maximização do lucro. Vale lembrar também que muitas das tentativas de fuga de Ginger acabam frustadas pelos cães de guarda, representantes do aparato estatal de opressão.

Outro personagem que merece destaque na trama é o galo Rocky. Visto como um “salvador”, este yankee se diz capaz de libertar todas as galinhas, pois poderia ensiná-las a voar. Em pouquíssimo tempo, o carismático galináceo começa a explorar sua fama. Acontece que tudo não passa de uma ilusão, uma vez que ele também não consegue alçar voo. A lição aqui é valiosa: evite o culto de personalidade; sua fé deve manter-se sempre ao lado dos trabalhadores.

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“O capital é trabalho morto, o qual, como um vampiro, vive apenas para sugar o trabalho vivo, e quanto mais sobreviver, mais trabalho sugará” – Karl Marx, O Capital.

Com o decorrer do longa, os capitalistas enfrentam um problema: o prolegalinhado não está produzindo mercadoria suficiente. A solução? transforma-los em tortas. A fuga das galinhas é CLARAMENTE sobre uma sociedade capitalista em estado de austeridade, onde a classe burguesa reduz os trabalhadores a um processo de refificação, simbolicamente devorando seus corpos.

Com a chegada da máquina de criar tortas, podemos notar outro pilar fundamental da economia marxista: o processo de mais-valia relativa. Para Marx, esta ocorre quando o desenvolvimento de maquinário mais avançado e de maior eficiência – o que deveria, portanto, significar a diminuição de custos e tempo de produção- não se traduz em melhorias para o trabalhador, sendo apenas uma maximização de lucro para o capitalista.

“Eu não quero ser uma torta!”

Por fim, devemos lembrar que, embora o prolegalinhado tenha sido capaz de fugir da granja, eles NÃO tomaram os meios de produção, evento imprescindível para a superação da sociedade capitalista. Em verdade, Ginger os leva, tal como um messias, a uma espécie de terra prometida, uma Utopia. Em uma verdadeira revolução comunista, eles teriam de tomar os meios de produção, dominando e instaurando a ditatura do proletáriado na fazenda. Lembrem-se, pequenos gafanhotos: capitalismo é algo que deve ser superado através de luta, e não de fuga.

 

Desculpe-nos pelo textão. Aqui vai uma batata stalinista para alegrar seu dia!

xxx