IT, A Coisa: Uma Obra Prima do Terror Moderno

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Você com certeza já deve ter visto (ou ouvido falar) dos populares vídeos de palhaços assustadores que viralizaram no You Tube. Indivíduos não muito afeitos à própria vida que se fantasiam de incorporações sinistras de profissionais do riso que saem pelas ruas a fim de aterrorizar os transeuntes  em versões ao vivo de filmes de terror. Pois o pavor provocado por palhaços não é uma novidade da geração da internet. Os sujeitos cujo oficio é o fazer rir já são há muito tempo considerados perturbadores por natureza, coulrofobia é o nome dado à esse medo. Assim como o próprio palhaço que não é uma profissão recente, tendo existido nas mais diversas civilizações, datando de mais de quatro mil anos, passando pelo Egito Antigo, Grécia, Roma e até mesmo civilizações mesoamericanas como os Astecas, sempre como aqueles que criticavam e ridicularizavam o estado, a sociedade e os reis. Na idade média ficaram notórios como os bufões, bobos da corte ou arlequins, os quais se vestiam de forma espalhafatosa e zombavam dos próprios monarcas com seu aval.

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Inimigo público número 1.

Circos itinerantes sempre foram locais de um misto de medo e alegria, onde as atrações incluíam tanto os alegres palhaços como diversas outras “aberrações”. Pessoas deformadas, ciganos e shows de horrores incluindo tais. Quem nunca teve sequer um leve receio na presença de um palhaço? Passando pelo infame palhaço assassino em série John Wayne Gacy, responsável pela morte de mais de vinte e nove garotos, as incorporações na mídia popular como o Coringa, arqui-inimigo do Batman e seu notório gás do riso assassino, até o mais famoso, Ronald McDonald e seu modus operandi de assassinato através de diabetes e colesterol, o palhaço se tornou uma figura sinistra na nossa cultura.

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John Wayne Gacy, assassino em série americano condenado a 21 prisões perpétuas e 12 penas de morte.  

Em 1986, o Rei da literatura de terror contemporânea, Stephen King decidiu escrever um livro sobre monstros. Quais? Todos eles! E assim nasceu IT, A Coisa, onde uma entidade que se alimenta dos medos infantis assume a forma desses temores e mata crianças durante um certo período e hiberna por cerca de  vinte e sete anos. E qual a forma padrão tentadora que King optou para que essa coisa assumisse para atrair as crianças? Um palhaço. Afinal, que criança no mundo não ama e teme palhaços? Conceitualmente, A Coisa de Stephen King é uma das criaturas do imaginário popular mais antigas e com mais variações  do mundo: o bicho papão.

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Tim Curry como Pennywise no filme para televisão de 1990.

Em 1990, o livro gigantesco de King (1100 páginas) foi adaptado para um telefilme de três horas de duração em formato episódico. O lendário ator Tim Curry vestiu as coloridas roupas de Pennywise, o Palhaço Dançarino em uma atuação fantástica e extremamente cômica, mesmo em meio aos horrores da maldita cidade de Derry. Hoje em 2017, uma nova versão da história foi feita para os cinemas dividida em duas partes. O primeiro filme conta toda a trajetória dos sete e inseparáveis amigos do Clube dos Perdedores durante a infância, enquanto que o segundo filme, ainda sem previsão de lançamento, cobrirá o retorno do grupo à Derry para uma vez mais enfrentar A Coisa.

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Guillermo del Toro, diretor de Hellboy e O Labirinto do Fauno

Dirigido por Andrés Muschietti, tendo como mentor um dos melhores diretores de filmes de terror e utilizadores de efeitos práticos da geração, Guillermo del Toro, IT, assim como seu diretor, trazem os ensinamentos de del Toro no que dita em economizar CGI e usar de forma mais bela e aterrorizante as maquiagens e manequins em sua concepção.

Fãs do livro não devem temer a nova adaptação. Apesar de muita coisa ter sido limada, resumida ou retirada, para uma adaptação de duas horas de filme de um livro de mais de mil páginas, as mudanças funcionam perfeitamente. Os próprios medos das crianças assimilados pela Coisa são muito mais orgânicos aqui no filme do que muitos dos escritos por King no livro que parecem ser apenas jogados para a inclusão de mais um monstro conhecido. Talvez um dos poucos problemas do filme seja o desenvolvimento da personalidade psicótica do bully Henry Bowers, a qual acabou por ser um tanto fraca no decorrer da película em detrimento de toda uma trajetória de eventos sombria e perturbadora narradas no livro.

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Stranger Things bebeu da fonte de inspiração do Rei no estilo de grupo de garotos enfrentando o sobrenatural.

O elenco mirim não poderia ser melhor. Todos os sete amigos e suas particularidades são traduzidos de forma fiel no filme: Bill (o gago), Stan (o judeu), Eddie (o hipocondríaco asmático), Ben (o gordo), Richie (o brincalhão que fala demais), Mike (o negro) e Bev (a menina problemática). Destaque deve ser feito para o jovem Finn Wolfhard, uma das estrelas da série da Netflix, Stranger Things e que rouba a cena como (o melhor personagem tanto do livro como do filme) Richie Tozier.

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Bill Skarsgård como o novo e aterrorizante Pennywise.

Sobre a nova versão de Pennywise por Bill Skarsgård, um sentimento misto fica, aquele de querer muito ir com ele para o circo brincar e se divertir, e o de nunca mais querer ver uma palhaço na vida de tão perturbador e aterrorizante que Skarsgård se torna, tanto em sua performance pré-ataque, parecendo um pedófilo pervertido, até nas partes em que a fantástica maquiagem surge, lembrando mais um demônio de pesadelos infernais.

Como comparação faço com IT sendo para terror o que John Wick é para a ação. Ambos os filmes nada tem em comum a não ser o ritmo frenético dos acontecimentos. Com certos momentos de pausa para logo em seguida termos uma belíssima coreografia de tiroteio e luta corpo-a-corpo em John Wick, IT faz isso mas com suas pausas para logo em seguida nos entregar mais uma das incontáveis cenas bizarras de horror visual chocante e não se entrega ao clichê do formato atual do sustinho.

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H.P. Lovecraft, pai do gênero literário de horror cósmico e grande influência de Stephen King.

Por ultimo e não menos importante, novamente se você é fã do livro e quer sua cota de fan service e easter eggs, nada tema! Temos bastante. Tem a estátua de Paul Bunyan, as tragédias dos antigos despertares da Coisa e é claro, a Tartaruga. Muito disso provavelmente será mais explorado no próximo filme como parte fundamental da história e não apenas deixado no ar como neste primeiro. A segunda parte de IT promete ter uma pegada mais horror cósmico (alguém falou Lovecraft?) como é para ser e trará um aprofundamento maior na história da Coisa.

IT é um dos melhores filmes do ano de 2017 e também da nova geração de filmes de terror. Com um formato um tanto diferente do usual do terror batido dos dias de hoje, IT é uma aula de como fazer um filme ao mesmo tempo assustador, cômico e divertido.