XX – Filme de terror produzido exclusivamente por mulheres que vai te deixar arrepiado

Nos dias de hoje, é difícil ver um produto audiovisual que tenha uma mulher no papel de protagonista. E, quando acontece, é aquele perfil estereotipado e sexualizado que estamos cansados de ver. Em junho deste ano a Netflix liberou em sua plataforma o filme XX, que consiste em quatro curtas de terror interligados por uma animação bem creepy feita em stop motion. As quatro histórias tem como pano de fundo temas recorrentes nos filmes de terror/suspense, mas são elaborados pelo ponto de vista feminino, tendo quatro mulheres como personagem principal.

casa medonha

O rosto dessa boneca/casa não vai sair da sua mente. Desculpe.

Outro diferencial dessa produção é que foi escrita e dirigida exclusivamente por mulheres. Annie Clark, Karyn Kusama, Roxanne Benjamin e Jovanka Vuckovic foram as responsáveis por essa obra que teve sua estreia mundial feita no Festival de Sundance, no começo desse ano. O filme teve forte apoio devido à abertura dessa discussão sobre a importância da voz feminina no cinema. As animações que intercalam as histórias principais foram feitas pela diretora Sofia Carrillo, conhecida pelos curta-metragens Black Doll e La Casa Triste, que também são feitos em stop motion e carregam essa atmosfera mais bizarra.

Como já mencionado, o filme é dividido em quatro. metroA primeira história se chama The Box (A Caixa). Conta a história de uma família que, após um dos filhos olhar dentro de uma caixa que um estranho carregava no metrô, vive assombrada pela falta de fome. Parece simples, até mesmo bobo, mas não se engane. É um daqueles suspenses que deixa o espectador tenso, aflito, esperando pelo pior, acompanhando a passagem dos dias. O final é curioso, não tem muita explicação sobre o que causou ou qual a origem da caixa, deixando no ar uma interpretação quase que filosófica. A cena final é a tela toda preta e a voz da mãe dizendo “estou com fome”. Quase irônico.

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A festa deu certo. Mas até quando?

A segunda história se chama The Birthday Party (A Festa de Aniversário). Mary está organizando a festa de aniversário da filha e se depara com o marido morto no escritório. Em menos de uma hora os convidados vão chegar, então ela tem que esconder o corpo. É possível acompanhar no desenrolar da trama a perda de consciência e bom-senso da protagonista, até culminar no inevitável desastre. Esse episódio é o mais interessante visualmente, pois as personagens tem um look mais futurístico, com um pezinho nos moradores da Capital de Hunger Games. É também o menos assustador, tendo um ar mais de comédia do que de suspense, apesar de ter seus momentos de tensão. Fato curioso: em uma das cenas, aparece uma garrafa da cachaça 51, representando bem o HueBr.

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Antes vs depois do encontro com Lúcifer.

A terceira história é a mais clichê do gênero. Intitulada Don’t Fall (Não Caia), narra a trajetória de quatro amigos num trailer que decidem fazer uma viagem e vão parar em uma… pausa dramatica… reserva histórica sagrada com um espirito maligno sedento por sangue. Uau, hein? Apesar da obviedade da situação, a narração é bem feita, as personagens são bem desenvolvidas apesar do curto tempo de duração e o terror não é baseado em sustos,  jump scares e litros de sangue. Em pouco tempo, entrega um produto final muito superior à grande parte dos filmes que seguem a mesma linha.

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Olha ele ali comendo um EMBRIÃO DE GALINHA. Normal né.

A quarta história é uma mistura do filme O Bebe de Rosimary com Precisamos Falar sobre Kevin. Só isso já é o bastante para imaginar o feeling dessa última narrativa. Her Only Living Son (Seu Único Filho Vivo) se trata de uma mãe solteira, Cora, tentando criar sozinha um psicopata de quase 18 anos. No meio da história acontece uma reviravolta que muda o teor da narrativa. Mesmo assim não há apelação, como aparição de espirito ou coisas comum no gênero. Ao final da trama, temos uma transformação na imagem da mãe de uma pobre coitada que luta para sustentar o filho adolescente para uma mulher forte, confiante e corajosa capaz de lutar com unhas e dentes para proteger sua única família. É bem bonito, na verdade.

De todas as quatro histórias, a premissa mais criativa é o primeiro curta, The Box. Apesar disso, todas elas possuem uma fotografia magnifica, trilha sonora que ajuda na criação do clima de suspense e roteiros bem escritos. O filme passa no Teste Bechdel e tem uma nota de 72% no Rotten Tomatoes. É o filme perfeito pra assistir num sábado a noite e depois refletir no importante papel da mulher na sociedade atual. Dá uma olhadinha no trailer: