Memento – Um filme pra ficar na memória

Quem nunca assistiu o clássico da sessão da tarde “Como Se Fosse a Primeira Vez” que atire a primeira pedra. Uma história linda de um sujeito que tem que conquistar a mulher que ama todos os dias porque, toda noite, as últimas 24 horas são apagadas de sua memória. É emocionante, é romântico, é bonito. Mas o filme em questão nesse texto não é.

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“Ache ele e mate-o”

Memento (2000) conta a história de Leonard, um investigador de seguros que tem a vida virada de ponta cabeça depois de um acidente. Além da esposa, ele também perde a capacidade de guardar novas memórias, às vezes se perdendo no meio de uma ação. Seu novo objetivo de vida é achar o assassino da esposa e o matar. Christopher Nolan, roteirista e diretor do longa, usa dessa peculiaridade do personagem para criar uma narração excêntrica, feita de trás pra frente. Isso acaba caracterizando o filme como um daqueles que, quando chega ao final, te deixa com aquela cara de “o que foi que eu acabei de ver”.

É estranho assistir um filme com a ordem cronológica invertida, principalmente porque já começa mostrando como acaba. O enredo não se baseia no que vai acontecer, e sim no por quê. É muito interessante o jeito que as coisas vão se conectando. Sabe quando você perde alguma coisa e vai reconstituindo seus passos de volta até a ultima vez que se lembra dela? É esse o feeling do filme.

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Leonard conhece Sammy em uma de suas investigações.

As quase duas horas de duração do longa são intercaladas entre as cenas da história principal, a investigação, com cenas em preto e branco do Leonard conversando com alguém por telefone. O conteúdo dessas ligações é um personagem chamado Sammy, que não participa ativamente da história. Ele tá ali na narrativa só pra ser uma explicação pro modus operandi do nosso herói, já que possui a mesma condição. Por causa dessa falha no cérebro, ele tira foto de tudo que é importante, como o lugar que está hospedado e as pessoas que o ajudam  durante o processo. Vale dizer também que a cronologia dessas duas linhas temporais é inversa. Enquanto a preta e branca segue pra frente, a colorida vai pra trás, mas as duas se complementam.

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“Lembre-se de Sammy Jankis”

Nolan é responsável por outros filmes do mesmo naipe, como O Grande Truque (2006), A Origem (2010) e Interestelar (2014), então o cara sabe o que tá fazendo.  A narrativa é muito bem construída e, apesar de confusa, é explicativa. Cada uma das cenas se encerra com o começo da que acabou de acontecer, interligando uma na outra e explicando porque o Lenny sai na porrada com um traficante debaixo do chuveiro.

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Essa cena… ;(

Memento não é só ação e confusão. Possui momentos que merecem destaque por criar uma relação entre espectador e personagem. Um deles acontece quando Leonard está na casa de uma garota e conversa com si mesmo sobre a morte da esposa. É uma daquelas cenas especiais que te fazer sentir empatia, te ajuda a entrar no espírito do cara. É nessa hora que o filme passa de uma coisa surreal e absurda pra história de um homem confuso, assustado e apaixonado que só quer saber como continuar vivendo. Profundo né?

Esse filme acabou se tornando um dos meus favoritos por ser inteligente, criativo e, principalmente, imprevisível. Nada é o que parece ser. O final está relativamente sujeito à interpretações, não por ficar em aberto, mas sim por não te passar cem por cento de confiança em nenhuma das explicações.

Esse não é um filme pra se assistir num domingo a tarde depois do almoço.

E se você está com seu Fisk em dia, é uma boa assistir esse vídeo do próprio Nolan falando sobre as linhas temporais do filme e sua construção: