A Filosofia de BoJack Horseman e Rick and Morty

É extremamente comum para a maioria das pessoas considerar animações como coisas para crianças, sem nenhum intuito que não seja divertir com piadas baratas e humor infantil. Contudo, duas séries recentes provaram que esse julgamento é totalmente infundado, contendo além de um humor adulto, também um nível de reflexão muito superior de outros shows live action, não caindo apenas no modelo de sátira e humor galhofeiro de outras séries animadas para adultos como Simpsons, Family Guy ou South Park. Hoje, falaremos dos conceitos filosóficos por trás dos dois melhores programas da atualidade: BoJack Horseman e Rick and Morty.

Um homem cavalo de meia idade que sofre de depressão.

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Produzido pela Netflix, BoJack Horseman conta a história do personagem homônimo que foi astro de uma sitcom nos anos noventa e que hoje tenta ser relevante novamente no mundo midiático. Nada mais do que uma série totalmente sobre depressão e a falta de perspectiva de vida, BoJack passa pelas ideias de alguns filósofos muito importantes do existencialismo.

6ea6f190c9ff874e5e67dadf61f208afVemos que a vida de BoJack é regada por excessos e distrações, ou o mecanismo de fuga do ócio. Como alguém que não tem obrigações e conta com toda a pompa e riqueza acumulada de seus anos como ator, hoje BoJack se vê perdido, sem o que fazer, atolado em todo esse tempo livre que preenche com álcool, prostitutas e drogas. Dessa maneira, incluímos aqui o pensamento do filósofo alemão Arthur Schopenhauer que dividiu o sofrimento humano em dois tipos totalmente opostos: a dor e o tédio.

Segundo Schopenhauer, quanto menos abastada for uma pessoa, mais ela está suscetível às mazelas da dor como a fome, a doença, a pobreza e os problemas que a seguem. No outro espectro temos o das pessoas que, ao contrário dos pobres, contam com todo tipo de recurso para limar os sofrimentos da dor física, assim sendo, tendem a utilizar desse patrimônio com trivialidades e, no momento em que isso não satisfaz mais seus desejos, vem o tédio, e com ele, um sofrimento emocional.

BoJack muitas vezes é visto de maneira que mesmo a distração cotidiana não mais é capaz de compensar suas questões emocionais e seu espírito pesado. O ócio, mais presente em pessoas que não possuem necessidades tão urgentes como a sobrevivência, ou seja, nas das pessoas com mais recursos, leva à reflexão, e a reflexão pode levar à depressão quando não encontrado um sentido para a própria existência.

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“O universo é cruel, frio e vazio. A chave para ser feliz não é buscar um significado. É apenas manter-se ocupado com coisas sem sentido e, eventualmente, você estará morto.” – Mr. Peanutbutter

Entramos então em um segundo pensador, o francês Albert Camus cuja obra se baseava na ideia do absurdismo. Para Camus, a busca de um sentido de vida num universo indiferente é absurdo. Assim sendo, temos algumas saídas: retornar à rotina diária de sofrimento, suicídio como fuga do absurdo ou aceitar o absurdo. Ao aceitar o absurdo, admitimos que nada possui um significado ou propósito e tentamos ser felizes da mesma maneira criando o nosso próprio sentido.

Um dos personagens da série que admite totalmente este pensamento é o Mr. Peanutbutter, o qual tem consciência total da insignificância das ações humanas e abraça esse absurdo como estilo de vida para ser feliz.

Um cientista louco e seu neto contra o vasto universo indiferente

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Rick and Morty é uma série animada criada pelo canal Adult Swim e trata das aventuras do cientista bêbado Rick, e seu neto adolescente Morty através de dimensões e mundos bizarros. Os conceito de absurdismo e a dualogia do sofrimento de Schopenhauer são muito tratado também aqui, mas focaremos em outros pontos interessantes ainda não explorados.

O primeiro é o do horror cósmico de Lovecraft já supracitado aqui em nosso blog. Levando como teoria filosófica, esse conceito é muito bem explorado em Rick and Morty num universo totalmente indiferente à existência humana onde habitam seres tão poderosos e transcendentais cujo único propósito é um programa de música com diversos planetas, ao mesmo tempo em que são idolatrados como deuses por uma parcela da população ignorantes quanto aos verdadeiros objetivos dessas entidades.

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Deus está morto, nós o matamos!

Outro preceito que cabe muito bem aqui é a citação retirada do livro Os Irmãos Karamazov de Fiódor Dostoiévski, “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. Assim sendo, o personagem de Rick assume essa essência de assassino de Deus (como em Nietzsche), e contando com sua inteligência absoluta e quase uma onipotência em poder criar e destruir mundos a bel prazer, Rick torna tudo possível, ou seja “tudo é permitido”.

A questão principal levantada por Rick and Morty é a do “o que é real?”. Muitos pensadores passaram por essa dúvida, assim como muitas obras de cinema e TV atuais. A série nos dá a resposta mais sensata possível para esse questionamento que é “não pense a respeito”, pois, assim como o horror cósmico, atingir a consciência de que o universo em que existimos não é o que pensamos pode levar alguém a loucura. Imaginar que nosso mundo serve apenas como bateria de carro de outra pessoa seria um tanto quanto demais para um indivíduo normal suportar.

Rick and Morty é uma série que trata muito bem do niilismo, tanto passivamente nos momentos de depressão e quase suicídio de certos personagens pela falta de sentido ou complemento, quanto ativamente em colocar Rick, Morty ou outros personagens como destruidores dos ideais de moralidade da sociedade moderna.

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“Eu estou em grande sofrimento, por favor me ajude”

Tanto BoJack, um ator que nada tem melhor a fazer do que procrastinar, quanto Rick com sua compreensão quase absoluta do universo, se veem num poço de sofrimento quando confrontados com essa epifania a respeito da esmagadora ausência de propósito. O caminho seguido por ambos é o da distração, seja com álcool, drogas ou sexo. Apesar disso, esse sentimento de vazio permanece na rotina infindável de eventos da vida, seria então como disse Dostoiévski “O sofrimento acompanha sempre uma inteligência elevada e um coração profundo. Os homens verdadeiramente grandes devem, parece-me, experimentar uma grande tristeza.”